{"id":9920,"date":"2010-03-30T05:11:59","date_gmt":"2010-03-30T05:11:59","guid":{"rendered":"https:\/\/catedra-alberto-benveniste.org\/texto-da-apresentacao-do-livro-a-tormenta-dos-mogadouro-na-inquisicao-de-lisboa-de-maria-fernanda-guimaraes-e-antonio-julio-andrade\/"},"modified":"2010-03-30T05:11:59","modified_gmt":"2010-03-30T05:11:59","slug":"texto-da-apresentacao-do-livro-a-tormenta-dos-mogadouro-na-inquisicao-de-lisboa-de-maria-fernanda-guimaraes-e-antonio-julio-andrade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catedra-alberto-benveniste.org\/en\/texto-da-apresentacao-do-livro-a-tormenta-dos-mogadouro-na-inquisicao-de-lisboa-de-maria-fernanda-guimaraes-e-antonio-julio-andrade\/","title":{"rendered":"Texto da Apresenta\u00e7\u00e3o do Livro &#8220;A tormenta dos Mogadouro na Inquisi\u00e7\u00e3o de Lisboa&#8221; de Maria Fernanda Guimar\u00e3es e Ant\u00f3nio J\u00falio Andrade"},"content":{"rendered":"<p>Palavras de apresenta\u00e7\u00e3o do livro de<br \/>\nMaria Fernanda Guimar\u00e3es<br \/>\n e de<br \/>\nAnt\u00f3nio J\u00falio Andrade<\/p>\n<p>A tormenta dos Mogadouro na Inquisi\u00e7\u00e3o de Lisboa<\/p>\n<p>N\u00e3o venho, propriamente, fazer-vos a apresenta\u00e7\u00e3o de um livro, mesmo tratando-se de um estudo de grande import\u00e2ncia, levado a cabo por Maria Fernanda Guimar\u00e3es e Ant\u00f3nio J\u00falio Andrade. Ainda tenho para mim que, se a prova do pudim se faz comendo-o, em rela\u00e7\u00e3o aos livros, melhor do que todas as palavras que possam ser ditas, o melhor \u00e9 mesmo l\u00ea-los. E v\u00e3o ver que este livro vale a pena, muito, ser lido. E sobretudo meditado, ou reflectido.<\/p>\n<p>T\u00e3o s\u00f3 venho dar-vos conta da viv\u00eancia que com ele senti, na minha condi\u00e7\u00e3o de leitor. Este livro n\u00e3o \u00e9 um livro sobre a Inquisi\u00e7\u00e3o. Se o fosse, seria um entre muitos, ainda que bom, porque, desde Alexandre Herculano a historiografia portuguesa sobre a Inquisi\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem parado de crescer. Ao contr\u00e1rio, a historiografia sobre as comunidades judaicas portuguesas \u00e9, comparativamente, menor, e de valia cient\u00edfica muito desigual.<br \/>\nMas este livro tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9, propriamente, ainda que fale deles, um livro sobre judeus, ou crist\u00e3os-novos. Se fosse, isso bastaria para o saudarmos, a par  do livro do Doutor Jorge Martins, como mais valia da historiogr\u00e1fica judaica portuguesa.<\/p>\n<p>Este livro \u00e9 sobre a indignidade a que a Inquisi\u00e7\u00e3o sujeitou sucessivas gera\u00e7\u00f5es. A fala sobre a fam\u00edlia Mogadouro confronta-nos com a Inquisi\u00e7\u00e3o, ela pr\u00f3pria, uma irracionalidade tamanha que, quando alguns de n\u00f3s, hoje, pensamos que compreendemos o que aconteceu, estamos segura e redondamente enganados.<br \/>\nEste livro \u00e9 uma fala sobre a humilha\u00e7\u00e3o e a ofensa, sobre a devassa da intimidade e a viola\u00e7\u00e3o das consci\u00eancias num mundo anterior ao surgimento dos cidad\u00e3os.<br \/>\nConfronta-nos com um tempo longo que, deixados para tr\u00e1s os anos de constru\u00e7\u00e3o da monarquia afonsina e perdidas as energias iniciais da dinastia de Avis, a nossa comunidade se afundou numa atmosfera de medo que durou, arredondando per\u00edodos, de cerca de 1536 at\u00e9 1822.<br \/>\nForam quase trezentos anos durante os quais a sociedade portuguesa na sua globalidade, e n\u00e3o apenas as comunidades judaicas, se afundou numa atmosfera mental em que o medo, a den\u00fancia, a dela\u00e7\u00e3o foram, como dizia Ant\u00f3nio Vieira, dias de p\u00e3o, de que n\u00e3o s\u00f3 os processos da Torre do Tombo nos d\u00e3o conta, mas tamb\u00e9m os testemunhos de tempos posteriores.<\/p>\n<p>Exemplos? Entre muitos poss\u00edveis, e citando uma antiga sabedoria, em Portugal, os homens do s\u00e9culo XVII apenas foram senhores do que calaram e, seguramente escravos do que disseram. Anos, adiante, j\u00e1 no s\u00e9culo XVIII, algu\u00e9m que pertencia \u00e0 elite cultural \u2013 Marques de Alorna -, dizia numa carta \u00e0 filha, encerrada no Convento de Chelas: \u201ca medo vivo, a medo escrevo, a medo falo\u201d.<br \/>\nNo plano social e das estruturas mentais, foi esta a heran\u00e7a que a Inquisi\u00e7\u00e3o nos legou: a paralisia social, a abolia individual e colectiva, uma vez mais, o medo que t\u00eam caracterizado, no decurso de tempo, sucessivas gera\u00e7\u00f5es de nossos concidad\u00e3os. Faltam na historiografia portuguesa estudos sobre o medo, cujo papel tem interessado mais os nossos amigos soci\u00f3logos do que os historiadores. O medo, de que, em 1933, Franklin Roosevelt falava: \u201cn\u00e3o temos nada a recear a n\u00e3o ser o pr\u00f3prio medo\u201d.<\/p>\n<p>Mas, vozes houve que n\u00e3o foram silenciadas, ou n\u00e3o se deixaram silenciar. A par de outras, a de Ant\u00f3nio Vieira, cuja luta de mais de trinta anos foi um compromisso pol\u00edtico com a reabilita\u00e7\u00e3o social dos judeus portugueses em di\u00e1spora, compromisso que Jo\u00e3o L\u00facio de Azevedo considerou excessivo.<br \/>\nO jesu\u00edta n\u00e3o deixar\u00e1 de recriminar o comportamento da Inquisi\u00e7\u00e3o portuguesa, da qual dizia ser mais bem feroz do que a castelhana, mas tem em mente criar as condi\u00e7\u00f5es para que os &#8220;homens da na\u00e7\u00e3o&#8221; voltem a Portugal: &#8220;porque o que os mercadores portugueses ganham nos reinos estranhos, l\u00e1 fica, e o que os estranhos ganham no nosso, para l\u00e1 vai&#8221;. Nenhum monetarista diria melhor, porque, tanto quanto sei a prop\u00f3sito, nenhum disse tanto.<br \/>\nTudo o que os judeus pretendem, ou quase tudo, j\u00e1 est\u00e1 no relat\u00f3rio de 1643 e na proposta a D. Jo\u00e3o IV a favor da Gente da na\u00e7\u00e3o, de 1646. Vieira visava uma mudan\u00e7a estrutural na sociedade portuguesa, e que passava por um clima que permitisse o regresso da \u201cgente da na\u00e7\u00e3o\u201d e do seu potencial financeiro. <\/p>\n<p>Come\u00e7ara por defender melhor tratamento de toda a popula\u00e7\u00e3o crist\u00e3-nova, que consistia em;<\/p>\n<p>\u2022\tAbrir os c\u00e1rceres do Santo Of\u00edcio, solicitando em Roma um perd\u00e3o geral para todas as heresias at\u00e9 \u00e0 data; <\/p>\n<p>\u2022\tChamar ao Reino os Judeus foragidos, dando-lhes a seguran\u00e7a de n\u00e3o serem vexados por pr\u00e1ticas ou convic\u00e7\u00f5es de teor dogm\u00e1tico; <\/p>\n<p>\u2022\tIsentar da pena de confisco os bens m\u00f3veis empregados no com\u00e9rcio;<\/p>\n<p>\u2022\tEliminar a divis\u00e3o e a distin\u00e7\u00e3o entre crist\u00e3os-velhos e crist\u00e3os-novos, quanto ao nome e quanto aos of\u00edcios, e mesmo quanto \u00e0s isen\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>\u2022\tFinalmente, mudar os procedimentos processuais seguidos pela Inquisi\u00e7\u00e3o nos casos de suspei\u00e7\u00e3o de hebra\u00edsmo, em sentido favor\u00e1vel aos eventuais r\u00e9us. Defendia testemunhas \u00e0 vista, um procedimento \u00e0s claras, consoante o que se praticava nos tribunais civis (abertas e publicadas, como ent\u00e3o se dizia).<\/p>\n<p>Estas condi\u00e7\u00f5es eram necess\u00e1rias para que pudessem medrar as companhias de com\u00e9rcio, destinadas ao tr\u00e1fico do Brasil e da \u00cdndia. Por esta via se lograria, seguramente, aumentar as rendas das alf\u00e2ndegas, e por via do incremento do com\u00e9rcio colonial, refor\u00e7ar a capacidade de auto financiamento do Estado.<br \/>\nDi-lo muito cedo, logo em 1643: &#8220;Da sua vinda (dos Judeus) crescer\u00e3o os direitos das alf\u00e2ndegas de maneira que eles bastam a sustentar os gastos da guerra, sem tributos nem opress\u00f5es dos povos; pagar-se-\u00e3o os juros, as ten\u00e7as, os sal\u00e1rios a que as rendas reais hoje n\u00e3o chegam. Crescer\u00e1 gente, que \u00e9 uma parte do poder e estar\u00e1 o reino provido e abundante&#8221;.<br \/>\nO tempo e a hist\u00f3ria, ou os dois, lhe deram raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Desse para onde desse, n\u00e3o havia futuro para as propostas de Vieira, e os textos de 1643 e de 1646 n\u00e3o produziram o efeito que desejava.<br \/>\nTrinta anos adiante (1671), quando se aproximava o fim desta luta em que, como em muitas outras, fora vencido, ainda dizia, em carta a Duarte Ribeiro de Macedo: &#8220;n\u00e3o poder haver maior cegueira que n\u00e3o querer ser rico e poderoso com o capital alheio&#8221;.<br \/>\nN\u00e3o deixar\u00e1 ainda de reclamar para os Judeus a seguran\u00e7a real e pontif\u00edcia por que sempre se batera, mas a frase \u00e9 t\u00e3o s\u00f3 um desabafo de vencido, quando est\u00e1 pr\u00f3ximo o cair do pano sobre o \u00faltimo acto da vida.<br \/>\nAnt\u00f3nio S\u00e9rgio disse ter sido a sua, uma das mais belas lutas pela liberdade de consci\u00eancia travadas em Portugal.<\/p>\n<p>N\u00e3o querendo abusar mais da vossa paci\u00eancia, dir-vos-ei, a terminar, que, embora pare\u00e7a que n\u00e3o estive a falar do livro, procurei que as minhas palavras fossem o tabuleiro, onde se joga, ou jogou, o jogo da opress\u00e3o e da resist\u00eancia, t\u00e3o bem documentado na memoriza\u00e7\u00e3o do drama da fam\u00edlia Mogadouro, de que os autores nos d\u00e3o conta no seu livro.<br \/>\nServindo-se de uma escrita depurada, tra\u00e7aram o percurso dram\u00e1tico de uma fam\u00edlia. Talvez pare\u00e7a pouco, n\u00e3o fora isso o paradigma que nos moldou e que ainda hoje, passados s\u00e9culos, nos faz ser como somos. Mais grave ainda: nos faz ser aquilo que somos.<br \/>\nObrigado Maria Fernanda e Ant\u00f3nio Andrade por no-lo recordar. O vosso livro vai-nos dar muito que pensar.<br \/>\nA.\tA. Marques de Almeida<\/p>\n<p>Lisboa, 24 de Setembro de 2009<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Palavras de apresenta\u00e7\u00e3o do livro de Maria Fernanda Guimar\u00e3es e de Ant\u00f3nio J\u00falio Andrade A tormenta dos Mogadouro na Inquisi\u00e7\u00e3o de Lisboa N\u00e3o venho, propriamente, fazer-vos a apresenta\u00e7\u00e3o de um livro, mesmo tratando-se de um estudo de grande import\u00e2ncia, levado a cabo por Maria Fernanda Guimar\u00e3es e Ant\u00f3nio J\u00falio Andrade. Ainda tenho para mim que, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8191,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[49],"tags":[],"class_list":["post-9920","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias-en"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catedra-alberto-benveniste.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9920","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catedra-alberto-benveniste.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catedra-alberto-benveniste.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catedra-alberto-benveniste.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catedra-alberto-benveniste.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9920"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/catedra-alberto-benveniste.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9920\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catedra-alberto-benveniste.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8191"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catedra-alberto-benveniste.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9920"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catedra-alberto-benveniste.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9920"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catedra-alberto-benveniste.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9920"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}